quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A ultima dose


Esse conto é sobre uma amiga que não podia ver uma garota bonita, uma mulher interessante, nem muito menos uma donzela em perigo. Nos conhecemos no mesmo bar que hoje enchemos a cara quase que cotidianamente. Um dia eu estava sentada tomando uma cerveja e ela se aproximou com aquele sorriso sacana, que levado a sério era subestimar a própria inteligência e se dirigiu a mim soltando a cantada mais barata que já ouvi na vida, dei um acesso de riso. No inicio ela ficou me olhando espantada e depois ria junto comigo da própria estupidez, dali em diante nunca mais deixamos de beber. Mas o conto não é bem sobre isso, essa foi só uma pequena introdução, na verdade bem modesta sobre quem é Luiza.

Agora vamos para a parte “ O que se tornou Luiza?”. Eu    nunca conheci alguém com tanta ex namorada, com tanto ex caso, ex amor, ex tudo e a cada semana uma futura ex pra transformar a atual, como num circulo vicioso, ou talvez quase uma cadeia alimentar. Tudo que ela tocava, no mínimo na semana seguinte, se tornava ex alguma coisa. E é claro que todos esses “ex” problemas a perseguiam por onde quer que ela fosse. Como ela resolvia? Transando! É tudo que ela sabe fazer e a julgar pela quantidade de mulheres, deve fazer bem, eu não sei.

O caso é que um dia entrou uma garota no bar, a garota. Ela sentou-se sozinha a mesa, era final de tarde e pediu um café. Abriu um livro, tentei ler o titulo, se não me engano era Dostoievski, pra nossa grande surpresa. Luiza me olhou e já foi caminhando em direção a ela. Fiquei olhando de longe, sem muita curiosidade por já estar cansada de ver aquele mesmo ritual dela. De repente ela voltou, não entendi.

- O que aconteceu?
- Falei com ela e ela simplesmente ignorou a minha presença. Como pode ser isso?
- A julgar por Dostoievski e isso, definitivamente é um garota esperta.
- Pode rir, mas não vai ficar assim! E que tipo de garota linda como ela é, lê Dostoievski? Como se ela precisasse...
- Você é tão babaca Luiza!
- O que? É verdade!

O caso é que aquilo mexeu com ela, Luiza não tirava os olhos daquela garota e não enxergou mais ninguém aquele dia. A garota passou a freqüentar nosso bar, Luiza se exibia sempre que podia, falando sobre cinema e Godard, enquanto fumava cigarrilha e bebia Jack Daniel’s. Mas a garota nunca prestava atenção, pegava as coisas e ia embora, em resposta ao circo que Luiza montava pra chamar sua atenção. Um dia durante uma dessas saídas, Luiza foi atrás dela, elas pararam bem próximas a mim e deu pra ouvir quando a garota disse:

- Por que você não pode ser normal? O dia que parar com o gênero, eu te escuto, ok?

Ela saiu e deixou Luiza lá parada, sem reação. Eu nunca vi a Luiza sem reação diante de uma mulher, mas ela ficou. Na semana seguinte lá estava ela de novo, sentada no mesmo lugar. Luiza pediu ao garçom que levasse o café por conta dela e um guardanapo onde ela escreveu: “ Me desculpe por bancar essa idiota a semanas, você me deixa nervosa!” Eu não acreditava no que estava lendo, perguntei:

- É nova tática?
- Não! Eu só estou sendo gentil, sei lá.
- Por quê?
- Eu não faço idéia.

Funcionou, a garota sentou ao nosso lado. Elas conversavam como se conhecessem há anos uma a outra e eu nunca vi a Luiza conversar e parar pra ouvir de fato nenhuma mulher que não fosse sua mãe, eu ou a empregada. Fiquei em choque! E depois catatônica quando ela disse que estavam namorando, que estavam se amando daquele jeito patético que ela dizia: “prefiro morrer”. Ela começou a correr das exs, se livrar das atuais e nem cogitar as futuras. Então eu me peguei bebendo o mesmo Jack Daniel’s dela e fumando aquelas cigarrilhas que achava tão fedidas, tudo isso sozinha no bar.

2 comentários:

  1. olá! gostei muito do teu blog. Teus textos, apesar de serem simples, são muito bem construídos.

    felicitações pelo talento.

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  2. Essa é a ideia Davi!Muito obrigado pela gentileza do comentário e volte mais vezes!

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