segunda-feira, 25 de junho de 2012

Disritmia

Quando eu a conheci, eu ainda amava a outra, eu ainda enchia a cara pra brindar o meu estilo “merda de vida”. Sempre foi assim, as mulheres sempre me destruíram, mas elas também sempre me salvaram. Elas sempre me provocaram reações dúbias e contraditórias. Desde arruinando a minha vida completamente, até o despertar de uma nova perspectiva em mim. Eu não as culpo, muito menos odeio, eu até já espero. Cresci em meio a um monte delas e não dá pra não amar cada detalhe neurótico que elas tem, que eu também tenho. A verdade é que eu não resisto a elas, sou completamente apaixonada por cada reentrância labiríntica. Então eu vivo essa espécie de disritmia.

Mas quando eu a conheci, além de amar a outra eu não queria saber. Ascendi meu cigarro e ela pediu um. Eu não disse nada, só inclinei o maço e ela pegou um. Em seguida perguntou se eu tinha fogo, olhei sem paciência e pensando: “ será que não se pode estragar a vida num bar, sozinha e em paz?”, mas não falei nada. Só ascendi o cigarro dela. Ela puxou uma cadeira e sentou-se a me olhar, fumando com aqueles trejeitos afetados que ela tinha e o batom vermelho, manchando a pontinha do cigarro de leve.

- Tá esperando alguém? Posso me sentar? – Perguntou
- Já está sentada.
- Incomodo?
- Bastante!

Ela sorriu. Eu não entendi bem, mas naquela hora alguma coisa me mordeu.

- Acha engraçado? – Perguntei
- Eu acho, você não?!
- Nem um pouco!
- Já sei, desilusão! Acertei?
- E o que interessa?
- Interessa muito! Você me interessa!
- Olha eu não tô afim ...
- Geralmente me olham bastante sabia?
- Nossa, que bom pra você! – (Bebendo minha vodka)
- Ela devia ser importante.
- Ela quem?
- O motivo da bebedeira e de você nem ter me olhado.
- Já passou por essa sua cabecinha pretensiosa que eu não esteja afim, simplesmente porque não gostei, ou talvez você não faça o meu tipo?
- Na verdade não.
- Pois é!

Ficamos em silêncio por alguns minutos, ela voltou a falar.

- E então?
- Então o que?
- Como ela era?
- Você não vai desistir não é?
- Não!
- Era ótima, somos amigas ainda, nos gostamos muito.
- E por que não deu certo?
- Havia tudo, menos amor. Digo amor mesmo, paixão. No fim, não tínhamos saída. Foi melhor!
- Ela devia ser bem legal.
- Ela é.
- Sente muita saudade?
- Às vezes sim. Normal de quem tá acostumado com a outra pessoa.
- Você quer parecer fria... Fala com desdém de tudo, faz pouco caso. Será que é assim mesmo?
- Assim mesmo o que garota? – (Virei o resto da dose, já meio alta)

Ela se inclinou, chegou bem perto de mim, frente a frente. Os instantes que duraram essa aproximação, foram delicados. Eu pude sentir o perfume feminino vindo do longo cabelo dourado que ela tinha. Nos olhos, um castanho confiante, com um sorriso sacana. Eu podia ver o pavor que meus olhos expressavam, no reflexo dos dela. Ela sussurrou:

- Então, tá esperando alguém?
- Por hoje, não mais.

Ela sorriu.

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