segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Adeus.

Naquele momento eu quis abraçar o meu pai, depois de tanto tempo, em anos eu quis que ele não sofresse. Nossas diferenças, faltas e brigas não tinham mais a menor importância. A dor que sentíamos naquele momento nos uniu, era muito maior do que nosso passado perdido.

Em meio ao meu caos, toda aquela gente que não via a muito tempo. A dona Maria que ficava brava e gritava sempre que jogávamos bola no portão dela. Às vezes a gente bicava a bola de proposito, só pra amassar, pra fazer barulho. A dona Deisy que sempre me chamava pra um café a tarde, com biscoito e Nescau. Ela dizia: “Essa menina é um doce” e eu gostava, ficava toda boba. Estava lá também, a Jurema, vizinha do lado que me chamava de “ Carola” e me levava pra ver filme no telão da casa dela, onde ela tinha um projetor e uma tela parecida com as do cinema de verdade. Naqueles momentos, enquanto ela me explicava como fazia pra ligar e projetar as imagens, é que eu soube que eu queria fazer aquilo, cinema. E estava lá também a Zilda, uma espécie de segunda vó a quem eu e minha vó sempre íamos visitar quando eu ficava por lá.

Me senti criança, uma menininha naquele momento, no meio daquele salão, daqueles abraços antigos enquanto eu chorava. Enquanto a levavam, eu tentava pensar que não seria pra sempre, mas era e isso me doía absurdamente. Saber que ela não estaria mais lá, naquela casa que virou ela, sentada no mesmo pedacinho de sofá sempre, fazendo piada de tudo, saber que não teríamos mais aquela mesma carne assada de sempre aos domingos e o bolo de cenoura pro café ( o melhor do mundo).

No momento derradeiro, o último, foi me dando um desespero, eu queria gritar: “tirem ela dai!” enlouquecida, mas não saia a voz. Então eu fiquei ali paralisada, como se alguém estivesse rasgando o meu peito com meu consentimento, sem maiores reações.

Na volta eu pensei na dor, em todas que eu já tive e era tudo tão pequeno perto disso, eu não sabia o que era dor. Me senti tão ridícula e por isso doía mais. Eu queria um anestésico, o mais forte que tivesse, queria dormir por um mês, ou talvez por um ano, mas isso tudo é só o começo.

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