quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lembranças de um despertar.

Um dia acordei pela manhã e lá estava ela ao meu lado me sorrindo. Achei tão bonita aquela cena ao acordar, ela entre os lençóis da minha cama, mas tão bonita que eu a quis mais vezes, naquela mesma cena repetidamente como se fosse minha cena favorita de um filme. Achei curioso...

Passaram-se três semanas e aquele despertar ainda me parecia tão bonito quando o primeiro, até mais pra falar a verdade como se cada dia ele fosse diferente em algum pequeno detalhe que eu não sabia ao certo qual era, mas havia um. Ela me trazia o café depois do meu banho matinal e eu ia trabalhar com aquela manhã na cabeça.

Um dia eu acordei e ela me olhava. Perguntei:

- O que houve?
- Fazem três semanas que estamos juntas.
- Já? três semanas? Nossa, nem havia me dado conta.

E não mesmo, mas eu sabia que o fato dela lembrar já queria dizer alguma coisa que eu não entendia muito bem ( às vezes me faltam pensamentos femininos). E acho graça de lembrar que o primeiro pensamento que me veio em mente foi: " Nossa! Mas já três semanas?". Hoje obviamente eu pensaria o contrário. Mas quando se é jovem é assim mesmo, se tem essa ideia intensificada do mundo, da vida, das coisas. 

Depois disso já estávamos morando juntas. Todo dia as seis da manhã ela me acordava pra ir trabalhar, o beijo tinha gosto de café e eu ficava sempre mais cinco ou dez minutos na cama. Ela dizia: " Anda amor, vai se atrasar!". Achava atencioso da parte dela se preocupar.

Três meses se passaram e o beijo com gosto de café já não parecia o mesmo, a cena dela entre os lençóis já não era mais tão bonita. Ela se irritava com meus atrasos e eu com os gritos dela. Quem grita as seis da manha? (Pelo amor de Deus!). Passei a me atrasar mais só com a finalidade de irrita-la tanto quando ela me irritava ali jogada nos meus lençóis, me ditando regras como se eu estivesse transando com uma combinação de Hitler com Mussolini e por que não citar também Salazar?!

De repente ela já não trazia mais café e eu voltei a frequentar a padaria da esquina. Mas isso não resolvia nada, o abismo entre nós era constantemente maior do que o do dia anterior e assim sucessivamente. Foi quando então ela decidiu partir. Não sei se fiquei triste, mas também não fiquei alegre, era só aquele vazio da casa como se sempre tivéssemos sido eu e ela, mas não era. Achava graça de sentir falta dela me chutando da cama e no primeiro dia eu até a procurei numa espécie de delírio sonolento, depois me lembrei que ela não estaria mais e assim eu continuei vivendo até que ela deixou de ser uma falta pra virar uma lembrança externa mentirosa do que eu não quero mais e uma lembrança interna saudosa do que no fundo um dia eu talvez ainda possa querer. 

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