domingo, 8 de setembro de 2013

Ainda sim, nada se compara a você.

Ela tinha sempre aquele cheiro bom pela manhã. Não sei explicar, era um cheiro particular, um cheiro só dela. No começo eu achei que fosse enjoar, eu sou assim. Mas com ela foi diferente, era sempre o mesmo cheiro, mas nunca era igual. Vinha acompanhado de um sorriso ou de um beijo, um carinho, uma trepada. Nunca era igual.

No começo, ela corria pra minha cama por necessidade e servia. Depois ela corria pra se refugiar, corria do mundo. E assim foi por um tempo. Até que me dei conta do amor nos olhos dela e me dei conta do amor nos meus também. Eu não fui embora e ela ficou. Tivemos muitos medos, mas durante um bom tempo os ignoramos, nossa vontade de estar junto e o bem que fazíamos uma à outra eram muito maiores. O problema é que eles nunca foram embora, eles sempre estiveram guardados em algum lugar de nós e hoje eu consigo ver.

Naquela manhã ascendi um cigarro e sentei na poltrona ao lado da cama pra a olhá-la, pra memoriza-la. Eu tinha certeza que algo estava acontecendo, algo estava mudando entre nós gradativamente. De repente me dei conta de mais lágrimas no lugar dos sorrisos e mais medo no lugar das vontades. O receio tomou conta de nós, mas quem iria admitir? Nos amávamos, sem dúvida! Mas chega uma hora que você olha e vê que mesmo aquele cheiro sendo o melhor do mundo, mesmo com todo o amor, com toda a história, vocês pararam ali. Você não tem mais nada a oferece-la e ela já não tem mais nada a oferecer a você também. O sentido se perde, tudo se enrola e é chegada a hora de ir.

Eu deitei ao seu lado e a beijei, a beijei com vontade. Senti aquele cheiro bom de sempre e chorei enquanto a tocava, enquanto ouvia seus gemidos de leve ao pé do meu ouvido. Definitivamente nosso problema não era falta de amor ou falta de desejo, eu a desejava mais do que nunca. Beijei cada pedaço do seu corpo, o pescoço, os ombros, os seios... Como eu adorava aqueles seios na minha boca, em minhas mãos. O gosto que ela tinha, nenhuma outra mulher tinha igual e eu sabia que ela me faria falta. Naquela manhã não trepamos, fizemos amor. Ela adormeceu nos meus braços e eu fiquei sentindo o cabelo dela no meu rosto por mais uma hora. Depois levantei, deixei uma carta que escrevi em cima do criado mudo, vesti meu casaco, peguei umas coisas, minha mochila e bati a porta. Desci a rua pensando na carta que deixei, eu podia ouvi-la lendo.

                                                  A carta

“Eu não sei se posso mais. Querida não é pessoal. Há algo acontecendo gradativamente comigo que está me tornando incapaz. Eu queria que fosse diferente. Você é a garota certa pra mim, mas porque eu não me sinto contente? Por que pareço tão insatisfeita? Desculpe-me se estou te magoando, mas não aguento ver as lágrimas que te causo todos os dias, em doses homeopáticas de veneno. Garota eu não quero envenenar seu coração.

Lembra aquela vez na sua cama? Lembra que prometemos isso a nós? Eu te devo isso garota. Faço por nós, faço pelas boas lembranças, faço por tudo que tentamos, porque você foi o mais perto que cheguei do amor real. Nós estivemos juntas quase o tempo inteiro. Lembra quando segurou minhas mãos e não me deixou sozinha? Lembra quando te abracei e fiquei? Eu amo tudo que fomos uma pra outra. Não pense que quero outras mãos em mim ou que quero abraçar e ficar por qualquer outro alguém, não é o que quero. É só que às vezes a vida nos pede solidão. Eu ando precisando seguir sozinha e não envolver mais ninguém nisso. No fundo eu não sou o que você precisa e cada dia que passa me convenço mais disso. Você não está pronta pra escolha e eu não estou pronta pra exigir isso de você. Você gosta do dia e eu da noite. O amor não basta, entende? Acho que nunca vai me entender, acho que vai achar que abandonei você, mas só estou fazendo a escolha que você não teria coragem de fazer. 

Nos fizemos bem demais e você sabe que apesar das lágrimas ninguém vai chegar tão perto quanto cheguei. Mas há desencontros e eles ficam cada vez mais evidentes quando você me diz que quer ir pra longe ou quando vejo você mentir sobre nós. Eu sei que sempre soube disso tudo, que isso faz parte do pacote, mas devo me conformar? Você deve se conformar? Como poderíamos viver assim? É como andar no corredor da morte. No fim você sabe que tudo acaba ali.

Mas mesmo sem entender, eu queria que você soubesse que nada que eu faça na vida, que nada nem ninguém... Nada se compara a você!”

É isso. No fim tudo acaba ali, mas continua aqui, dentro de nós.


                                             






quarta-feira, 28 de agosto de 2013

E se?

E se tudo isso que parece tão certo for o errado? Eu não sei mais se amei um dia. Sinto-me vazia quando penso no passado, quando busco a intensidade dele, parece que ela se desfez com os detalhes de cada lembrança que eu não tenho mais. Sinto que devo mais do que já dei, mas faço parecer o contrário. Do que tenho vergonha?

Agradeço a ela por comportar-se como se nada vindo de mim fizesse diferença, isso facilita, isso sempre facilitou as coisas entre nós. Ela sempre dividiu as culpas comigo. Por compaixão ou por capricho, seja pelo que for, obrigada. Eu só sei ser vítima. 

Mas e se um dia eu encarasse a realidade? Eu notaria o estrago que eu fiz na vida dela, eu  não me perdoaria por destruir a sua melhor saída,  a única ilusão em que podia agarrar-se quando tudo parecia uma merda por pura competição, por ego. E se aquela música fosse pra mim? Isso mudaria as coisas entre nós hoje? Eu não acho que seja. Mas se fosse... Eu a odiaria por isso, ela me obrigaria a sair da minha mentira, me mostraria quem foi realmente vítima e me faria chorar. Ela foi a única a quem não consegui enganar e por isso ela volta sempre, por isso eu a veja nos espelhos, nas vitrines, nos vidros de janelas por onde passo. É pra me lembrar de toda uma realidade que não consigo enfrentar.

O seu tudo foi mesmo tudo? Ir embora foi realmente um sacrifício? Essas são as perguntas que ela me faz no espelho pela manhã. E se eu tivesse ido atrás dela? Estaríamos vivendo um comercial de margarina ou talvez fossemos babacas uma com a outra. E se eu tivesse feito alguma coisa? Poderíamos estar nos beijando agora ou gritando e nos ofendendo, perdendo o respeito uma pela outra. E se ela tivesse sido única? Ela poderia ter sido amor da minha vida. Eu quis muito que ela fosse, mas não era ela e ela nunca realmente foi.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Desde aquele café...


A primeira vez que ela me beijou foi como uma explosão pelo meu corpo. Ímpeto. Era isso! Me vi tomada por ímpeto. E aquela sensação ascendia meu corpo de uma maneira que nenhuma outra mulher conseguiu fazer. Não era a primeira vez que eu estava com uma garota e nem uma das poucas, pelo contrário e de repente isso me pegou de surpresa. Eu achava que sabia tudo sobre as mulheres, tudo sobre como me relacionar com elas, tudo sobre como satisfaze-las sexualmente e como me satisfazer com isso, mas eu não sabia era de nada. Ela me ensinou, vem me ensinando. Talvez nem saiba. Isso desde aquele café.

Quando a vi pela primeira vez, eu sabia que queria levá-la pra cama e faria o que fosse preciso para convencê-la. Ela estava linda, vestia uma blusa preta com uma saia detalhadamente estampada. Eu não sei se ela sabe, mas eu adoro quando ela põe aquela saia até hoje. Tinha todo um movimento sensual que evidenciava seu corpo e que corpo... Mas tinha olhos doces. Essa confusão de sensualidade com doçura me intrigou de cara, me deixou curiosa e me manteve interessada. Ela falou sobre o tempo que morou na Europa e sobre teatro. Não se considerava atriz, mas tinha algo de dramático nela. Minha prepotência e aparente segurança não a impressionaram e notei no fim daquele primeiro encontro que o que ela havia gostado mesmo em mim, era justamente o que eu fazia questão de esconder, mas ela notou. Tentei beija-la, ela se esquivou, me deu um beijo no rosto e saiu correndo atrás do primeiro ônibus que passou. Eu podia ter achado que ela não havia gostado de mim, mas por algum motivo tive a sensação de que aquilo era uma coisa boa.

Não demorou muito pra que nos vissemos de novo. E lá estava ela, mais linda do que na primeira vez. Seria isso mesmo possível ou estava acontecendo algo comigo? Preferi não pensar nesse tipo de coisa, afinal de contas eu estava vivendo uma época casual depois de um longo relacionamento, mais idealizado do que real. Vimos uma exposição de arte contemporânea, conversamos um pouco sobre o quão era intrigante não termos nos visto antes com tantas amigas em comum. Eu ainda estava nervosa, ela me deixava muito nervosa.

- Por que me chamou pra tomar um café na primeira vez? – ela perguntou
- Sei lá, eu gosto de café, você disse que gostava também.
- Achei engraçado.
- Ué, mas por quê?
- Achei interessante. É que geralmente me convidam pra tomar um chopp.
- Hummm
- Que foi?
- Nada.
- Você parece nervosa, acho uma gracinha.

Ficamos ali nos olhando por alguns instantes e quando decidi beija-la, novamente ela fugiu de mim, mas aquela noite reservava surpresas.

Quando transamos a primeira vez foi como uma descarga de energia, aquela sensação de explosão que senti no nosso primeiro beijo numa quantidade absurdamente maior. Tesão, muito tesão e a transa mais feminina que eu já tive na vida. Quando acordei, ela ainda dormia, eu não sabia, mas ainda veria aquela cena muitas vezes. Eu nunca disse a ela e nem a ninguém, mas naquele dia quando acordei eu sabia que tinha acontecido algo de diferente em mim. E eu que era uma mulher que não entendia nada das mulheres,mas não sabia disso, me encantei por cada detalhe real que ela me mostrava, cada drama contado nos meus braços, cada pedido feito entre beijos, cada confiança conquistada entre sorrisos e olhares, gestos de carinho, fúria e alguma repetência ao inevitável. O amor.

Pode parecer prepotente afirmar que essa mulher ama o que eu sou, exatamente como sou, mas  pela primeira vez na vida eu não preciso fazer gênero com alguém. Ela não se importa que eu não goste tanto assim de Wood Allen, mesmo sendo cineasta, não julga a minha insegurança mesmo eu tendo tido tantos relacionamentos e nem a minha sensibilidade arcaica. E eu aprendi que amor não é amar cada encanto, isso é muito fácil. Amor é mais que isso! É respeitar as fraquezas, é compreender os limites, é amar mesmo naqueles dias sem paixão, é viver cada desencanto e entender que o encanto vem também de cada uma dessas coisas que fazem parte do que ela é. E eu amo o que ela é. Ela é melhor do que um ideal pelo único e simples fato de ser real.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

E assim passam os dias...


Ela é como as mulheres de Almodóvar. Causa-me um fascínio e às vezes um cansaço... Tudo isso se mistura a uma intensidade, um desejo, uma necessidade urgente. E eu fico pensando que só sei que a quero! Pensando que eu a quero muito! Ela carrega o drama com ela em cada movimento, como segura o cigarro, no jeito que discursa sobre suas preferências, o jeito que me chama, que me implora com os olhos, as mordidas no lábio, na reação ao meu toque. Nunca são iguais. Às vezes chora seca e raramente rendida.
                 
Apaixonar-se por ela é como montar um animal selvagem. Quedas e mais quedas, é arredia e por isso linda! Às vezes sinto-me como um mero espectador do espetáculo lindo que é vê-la existir com suas belezas, com suas fraquezas e principalmente com as amarras de um mundo que ela carrega nas costas.

Queria poder falar o quanto lhe preciso, o quanto a desejo exatamente desse jeito humano e corajoso o suficiente pra admitir o cansaço, suas dores. E são nessas horas que a beijo de olhos bem fechados e de coração aberto. Para que sinta o que não consigo falar intimidada pela reprovação de seus olhos. Então que falem meus braços quando tiveres neles, que falem meus lábios quando estiverem nos teus, que falem meus olhos, mesmo quando tentam fugir de um encontro, que fale o meu corpo quando estiver junto ao teu no escuro do meu quarto, que fale a cada vez que me ponho a despi-la enquanto me sussurra sacanagens ao pé do meu ouvindo.

Talvez eu queira passar uma vida entre seus altos e baixos, talvez eu queira passar a vida lhe dizendo sempre de muitas maneiras o quanto eu a quero. Mas provavelmente ela não saiba disso. E assim passam os dias... 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A ultima trilha sonora.


Perdi o sono, estou aqui a pensar, a me deixar levar por devaneios confortantes e completamente cômodos. Essa música... Ah! Me lembra nossa primeira vez naquele café. Agora me perdi. Voltei pro começo e estamos tratando do fim.

Quando partiu não me disse nada, carregou tudo nos olhos de Capitu, aqueles olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Mas me deixou uma lista de músicas, que eu ouvi com a impressão de que em cada uma delas continha um pouco de tudo que ela queria dizer e não sabia como. Ou talvez tudo isso não passe de uma grande tolice e essa lista apenas seja a trilha sonora incrível de um belo pé na bunda.


Quando se está apaixonado, acredita-se em qualquer coisa, como se houvesse uma necessidade de se agarrar em qualquer besteira que te faça menos tolo e romantizar um momento desgraçado é algo que eu faço de melhor. Não me torna menos tola, mas é como me drogar, anestesia, estanca. E por que não o fazer? A desgraça é tão, como já diz o nome, sem graça. Não posso torná-la mais bonita ou menos desgraçada? Afinal de contas, os ignorantes são mais felizes. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Final Feliz


Havíamos acabado de transar, éramos duas pessoas completamente desconhecidas. É incrível como depois de gozar, neste caso, tudo torna-se meio impessoal. Eu sentei na beirada da cama, peguei o maço de cigarros que deixei no criado mudo, ascendi um e encostei a cabeceira. Ela me olhava curiosa.

- O que você faz?
- Escrevo. (tragando o cigarro)
- Sobre o que?
-Sobre o que eu penso, pequenas epifanias, contos, romances...
- E tá escrevendo alguma coisa agora?
- To trabalhando em um conto, mas não consigo terminá-lo.
- E por que não?
- O caso é que não sei que fim dar. Tudo que escrevo, geralmente é bem pessoal, tem tudo e todos a minha volta. Eu sou sujeito do que escrevo, mas sempre soube separar, sempre soube viajar em possíveis finais irreais. Agora neste caso... Sabe quando você não sabe o que pensar?  É como se eu fosse um livro inteiro e o resto das páginas pra frente, estivessem em branco. Eu não consigo ver, projetar. E eu sempre consegui, mas dessa vez é diferente.
- Sobre o que é?
- Um garoto que se apaixona por uma mulher mais velha.
- E o que isso tem a ver com você?
- Conheci uma mulher, ela nem é mais velha, mas me faz sentir assim, um garoto.
- Me da um cigarro?
- Você disse que não fumava.
- Não fumava, mas me deu vontade.
- Tá bem! Pega um. 

Ela pôs o cigarro na boca sem jeito nenhum, e eu ascendi pra ela. Na primeira tragada, teve um ataque de tosse. Eu ri e ela pareceu se irritar.

- Qual é a graça?
- Por que isso menina?
- Você me faz sentir como se eu fosse uma garota.

Peguei o cigarro das mãos dela e apaguei. Ela me olhava assustada, eu a beijei. O gosto do cigarro me excitava, beijei-lhe a nuca e lhe provoquei sussurrando sacanagens ao pé do ouvido. A cada sacanagem dita, ela estremecia em meus braços, completamente entregue, vulnerável a mim. Beijava-lhe os seios, a sentia com vontade e enquanto a tocava, ela gemia baixinho.Quanto mais a penetrava, os gemidos  aumentavam junto, até chegar ao descontrole sem pudor. E com a voz falha de tanto tesão, ela dizia ao pé do meu ouvido:

- Isso! Eu vou gozar, eu vou gozar... (repetidamente)

E gozou! Enquanto ela terminava, eu gozava vaidoso e satisfeito. Talvez aquela fosse uma boa sugestão para um final, talvez fosse disso que eu precisasse, um bom orgasmo pra um final feliz.

sábado, 13 de outubro de 2012

O que sobrou do céu


Primeiro tive um impulso, mas apaguei todas as possibilidades de resposta que eu pudesse dar. Porque logo em seguida me veio em mente, exatamente, as reais intenções dela com aquela carta. Eu a conheço o suficiente pra saber, mas não o bastante pra entendê-la, então pensei. Eu não sabia ao certo se ia querer atravessar aquela porta de novo, ainda mais agora que eu sabia todos os prós e contras que me esperavam por de trás dela.

Quis responder e achei fraqueza minha, pensei em tudo que ela havia me dito, pensei nos nossos erros, quis odiá-la, mas descobri exatamente nesse ódio e nessa "fraqueza", amor. Não adianta eu ficar encontrando desculpas racionais pra isso, nem levantar bandeira alguma de que um homem de valor tem que se dar ao respeito! Nada disso é relevante quando se tem o peito carregado de amor, mesmo que isso pareça uma grande estupidez ou simplesmente démodé demais. 

Então atravessei a porta, mesmo sabendo de tudo que tem me esperando por de trás dela. Porque o que sobrou, vai sempre sobrar quando for por ela, amor.